• 12ago

    Menino obediente aquele. De família humilde, entendia perfeitamente as dificuldades do pai em manter um lar. Trabalhando de sol a sol, trazia para casa o suficiente para o sustento. Raramente sobravam alguns trocados para extravagâncias. Quando chegava a época do Natal, o menino já sabia que dificilmente ganharia algum presente mais sofisticado. À época desta passagem, o presente mais almejado pelas crianças era a tão sonhada bicicleta. Sabedor da quase impossibilidade do Papai Noel trazê-la em seu saco de presentes contentava-se sempre com o que recebesse, o que não o deixava menos feliz. Sabia que era o que estava ao alcance das posses do seu pai.

    Tinha uma aspiração por música e não podia ver alguém tocando sanfona para sonhar alto e pensar em voz alta:

    - Um dia ainda vou ter uma.

    Chega mais um Natal e manifesta este desejo para a mãe. Esta com todo o carinho e procurando não magoá-lo, disse-lhe:

    - Filho, é muito caro e o papai não tem dinheiro para comprá-la.
    Compreendeu a situação, mas cabisbaixo, disse:
    - Sei mamãe… Mas será que vai fazer tanta falta o dinheiro para comprar a sanfona?

    O diálogo terminaria aí se a zelosa mãe não dissesse ao seu marido o comentário do menino. Ato contínuo, o também zeloso pai condoído, disse a ela que faria até o impossível para satisfazer seu desejo. Como dezembro era um mês que se mostrava favorável ao trabalho, programou realizar serviços extras para arrecadar o necessário para o presente.

    Chega o Natal. Família reunida. Parentes se abraçando comemorando mais um aniversário do menino Jesus. Na troca de presentes, o pai entrega ao filho um pequeno pacote. Ao abri-lo nota haver dentro dele um carrinho movido a corda, desses comuns que todos os amiguinhos dele já tinham. Conformado com o presente, não deixou de agradecer ao pai pela lembrança dando-lhe um beijo. Nisso o pai puxa por um outro pacote e não contendo as lágrimas, disse:

    - Filho, isto é para você. Aquilo que você queria ganhar está aqui. Você mereceu.

    Sem saber o que dizer e ainda um pouco envergonhado, o menino a esta altura trêmulo, desembrulhou o pacote e vê surpreso, a sanfona que tanto queria.

    Muitos e muitos anos depois, este mesmo menino, agora adulto, jamais se esqueceu daquele ato de desprendimento de seu pai. Guardadas as devidas proporções e tendo em mente o exemplo edificante do pai, procurou fazer algo semelhante com seu filho. Embora a situação fosse outra e as dificuldades não tão marcantes como naquela época, este menino pai recebeu pedido semelhante de seu filho. Queria ganhar de presente um robô que ele tinha visto em uma revista e que se movimentava através da voz. Era o início da década de 80, e uma grande novidade para a época. Naquele exato momento passou um filme pela sua cabeça. Veio à sua mente quão feliz ficou por ter ganhado a sanfona de seu pai. Reconheceu os esforços que este deve ter feito para adquiri-la. Portanto, não pensou duas vezes e em uma de suas viagens ao exterior, pois o brinquedinho só existia por lá, comprou-o. Há controvérsias sobre quem ficou mais feliz. Teria sido o menino por ter recebido de presente aquilo que almejava, ou o pai por ter satisfeito o seu desejo, lembrando o que ocorreu no passado.

    A sanfona hoje tem mais de 50 anos e o robô 20 anos. O mais pitoresco é que ambos estão discretamente juntos em uma estante, simbolizando duas épocas e quem sabe em um futuro não muito distante, haja nessa mesma estante um outro presente simbolizando a terceira geração de famílias felizes.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 15:12

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  • 09abr

    As diferenças lingüísticas regionais obrigam-me a dizer que temos algumas denominações para o estilingue.  Pode ser, também, chamado de funda, atiradeira, bodoque, etc. No meu tempo de moleque era estilingue, mesmo.

    Como qualquer menino que adorava viver na rua, apesar dos protestos da mãe, era daqueles que, inocentemente, gostava de usar o estilingue para realizar algumas traquinices próprias de crianças levadas. Já lá se vão mais de cinqüenta anos. Era o início da iluminação pública e a rua onde morava recebeu este tão esperado benefício. Quanta alegria. Poderíamos passar mais tempo vagando na rua, pois passaria a proporcionar maiores oportunidades de lá permanecermos até durante a noite. Convém lembrar que naquela época ainda não havia o perigo comum de hoje em perambular pelas ruas, alamedas e vielas da vila.

    Como toda a novidade, aguçava a curiosidade daqueles, que como eu, buscava novas emoções em tudo que surgia de novo. As lâmpadas eram emolduradas por um tipo de prato superior que auxiliava no reflexo da luz.   Era algo moderno para a época, mas despertava certa curiosidade para a molecada. Pouco a pouco, percebemos que aquele avanço da modernidade em oferecer aos munícipes um pouco mais de conforto, passou a ser um alvo desejado para os nossos estilingues.

    Uma semana após terem sido instaladas as luminárias, pelo menos metade delas já se apresentavam sem as devidas lâmpadas, mesclando a rua com pontos escuros com a  falta de iluminação em determinados pontos. Como ocorreu isto? Ora, pela mira precisa de alguns companheiros que utilizando pedras ou frutos de mamona com um estilingue feito à mão (quem não se lembra?) destruíram aquilo que devia ser preservado. Mas convenhamos, como era gostoso…

    Como sempre acontece quando uma má ação é realizada, fomos descobertos. Foi o pai de um dos meninos da turma. Após uma descompostura, aliás, merecida, fomos obrigados a entregar-lhe todas as nossas perigosas armas. Além disso, fomos obrigados a realizar boas ações para compensar tais atos de vandalismo.

    Firmamos o compromisso de não mais agirmos daquela maneira, quebrando lâmpadas causando o desconforto para os moradores da rua. Em contrapartida, o tal pai do nosso coleguinha comprometeu-se a nos restituir os tão queridos estilingues após cumprirmos a promessa. O castigo durou uma semana, período em que parecíamos querubins acompanhando a mais religiosa das procissões.

    Passado o período de castigo, tivemos de volta as nossas “perigosas” armas.  Contentamos respeitosamente o pai até então enfurecido, prometendo-lhe jamais atentar contra o patrimônio que tanto nos beneficiava.

    De posse dos estilingues, nos reunimos (sim, já tínhamos poder organizado), e decidimos nunca mais quebrar aquelas lâmpadas que permaneciam ao nosso alcance. Entretanto, notamos que, cada vez com maior freqüência, os passarinhos se acomodavam nos fios que transmitiam energia para manter as lâmpadas em funcionamento. Como todos nós nos gabávamos por termos boa pontaria, por que não derivar as nossas habilidades para combater o excesso de excrementos que os pássaros poderiam causar na via pública.

    E assim fizemos… os estilingues funcionando a todo vapor, os pássaros sumiram como num passe de mágica, a rua permaneceu limpa, as lâmpadas intactas, e o pai do nosso amigo feliz para sempre.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 12:11

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  • 22nov

    É sempre bom tentar passar um pouco de humor através deste espaço, e como bom português que sou, ou melhor legítimo, gostaria de lembrar duas interessantes passagens ocorridas com os laboriosos e inteligentes jogadores de pelota da terra de além-mar.

    Os mais saudosistas devem lembrar-se do famoso guarda-redes Costa Pereira, que defendia o Benfica e por muitas vezes, o arco da seleção portuguesa. Tinha o hábito de jogar com um boné na cabeça. Não testemunhei, mas dizem que durante um jogo acirradamente disputado, o nosso herói havia realizado uma estupenda defesa, fazendo aquela ponte voadora, causando a perda do boné que foi parar dentro do gol. Qual não foi a surpresa dos companheiros e da platéia quando ele, com a pelota nas mãos, dirigiu-se ao fundo do gol para recolher o seu inseparável boné. O árbitro não teve dúvidas e marcou gol para o adversário, o famoso gol do boné.

    Outra hilariante passagem de um patrício aconteceu nos idos de 1958 durante amistoso no Morumbi do Benfica contra o São Paulo. È comum tentar invalidar uma jogada de sucesso do adversário com reclamações do juiz sobre a legalidade do lance. Mas neste jogo o guarda-redes português passou dos limites.

    O time do Morumbi atacava pela direita, e o arqueiro português ao ver que o centro-avante se posicionava para receber o cruzamento, deslocou-se para o meio da área para interceptar o cruzamento. Ele só não contava com a mudança de direção do ponta-direita, que, em vez de levantar a bola para a cabeçada do centro-avante, invadiu a área, chutou e fez o gol do São Paulo. Inconformado com a improvisação, o goleiro do Benfica não teve dúvidas em gritar para o juiz:

    - Não valeu, não valeu! Ele ia cruzar, ele ia cruzar!

    É por estas e outras que o futebol continua sendo a alegria do povo.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 17:50

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