• 26ago

    Em épocas remotas era prática comum aos pais decidirem sobre o futuro matrimonial de seus filhos. Cabia a eles decidirem com quem suas filhas deveriam se casar.

    Já vimos muitos exemplos e histórias a respeito dessa interferência paterna em querer planejar a vida de seus herdeiros, mesmo não sendo aquela opção desejada por eles.

    Nos primórdios do século 20 vivia uma jovem de formação cultural acima da média para aquela época. Habitava em uma aldeia (a história se passa num país europeu) onde a população era de origem pobre e mantinha-se por meio do trabalho na lavoura. A jovem demonstrava interesse em se aperfeiçoar e sempre se destacou das meninas da sua idade por revelar aptidões culturais pouco em desuso para a época.

    Como toda adolescente bem apresentada e elegante, chamava à atenção dos jovens. Aos quinze anos conheceu um rapaz morador das redondezas e por ele se apaixonou. Amor de adolescência? Poderia ser, mas havia uma identidade tão grande que saltava a olhos vistos a grande afeição que havia entre os dois. Respeitavam-se e tinham os mesmos ideais. Trocavam lindas cartas de amor forradas de expressões apaixonadas, pois ambos possuíam extrema sensibilidade poética. O futuro de ambos parecia estar traçado. Parecia. Não fosse a interferência e o desejo de seus pais, que não sabiam a existência do romance, o futuro cor de rosa estava garantido.

    Por uma decisão arbitrária os pais haviam prometido a jovem a um respeitado senhor da aldeia vizinha, com posses capazes de satisfazer os melhores dotes que um pretendente poderia oferecer.

    A notícia foi recebida com indignação e tristeza pelo jovem e apaixonado casal. De nada adiantou as manifestações de desagrado da jovem. Seus pais afirmavam que o pretendente era o melhor para ela e o tempo ajudaria a acender a chama do amor entre eles.

    Fato consumado, não tiveram alternativa senão terminarem o relacionamento. Desapontado e com o coração partido, ele aceitou participar de uma missão humanitária na África. Como voluntário achava que poderia apagar do seu coração aquela paixão sincera, dedicando-se a fazer o bem a quem necessitava. Partiu sem antes despedir-se da amada, sabendo que nunca mais a encontraria.

    Ela, por sua vez, seguiu a vontade dos pais e logo em seguida casou-se com aquele marido encomendado.

    Passaram-se muitos anos. Tiveram filhos, netos. O marido nunca se portou como um exemplo a ser seguido. Apesar de não ter deixado de dar apoio à família, as suas ausências eram sentidas. Numa dessas ausências, soube-se depois que havia constituído outra família, para o desgosto da esposa que a esta altura já havia decidido morar junto com uma das filhas. Porém a sua grandeza era tamanha que sempre transmitiu aos seus descendentes, lições de harmonia e a importância da união familiar.

    Ele morreu primeiro. Longe da família e com poucos amigos, porém venerado, pois de qualquer forma, foi o responsável pela procriação de uma geração.

    Ela ainda viveu alguns anos. Pela própria vocação – tinha sido professora – ensinou aos seus netos várias lições de respeito e resignação. O pilar da família deveria ser o mais resistente possível, para evitar desmoronamentos.

    Em seu leito de morte revelou um segredo que mantinha com ela desde a época da primeira e única paixão. Pediu que as cartas de amor que ainda guardava, fossem levadas consigo e colocadas junto ao seu coração. Disse, também, que o seu grande amor havia falecido de uma epidemia anos depois em cumprimento a sua missão na África e que jamais o havia esquecido.

    Quando Deus a chamou, seu pedido foi atendido e certamente a grande paixão ainda reside no coração de ambos, estejam eles onde estiverem.

    Nem tudo na vida acontece como queremos. Mas se ocorrer algo contrário à nossa vontade, saibamos administrar e tirar proveito dos ensinamentos para transmiti-los aos nossos descendentes como lições de muito amor, perseverança e resignação.


    Escrito por Álvaro Ferreira @ 21:09

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  • 26ago

    Aquele humilde e sofrido senhor na faixa dos 70 anos, precisou de atendimento médico e como no país que se passa o acontecimento não havia rede pública de atendimento médico eficiente, e a assistência privada é só para uma minoria que tem condições de pagar pelos serviços, obrigou o nosso herói a comparecer a um posto de atendimento para idosos. Em Atrasópolis a instituição é conhecida como INSQP (Instituto Nacional do Salve-se Quem Puder).

    Sabedor das dificuldades de ser atendido pelo excesso de pessoas que procuram este tipo de assistência, foi dormir cedo na noite anterior, pois precisava madrugar para conseguir bom lugar na fila de atendimento. Providenciou uma lancheira emprestada do neto, colocou alguns sanduíches de mortadela e duas garrafinhas de água.

    Às 5 horas da manhã lá estava ele ansioso pelo atendimento. Há um costume interessante em Atrasópolis: para tudo que se possa imaginar fazer, há que se enfrentar longas filas, principalmente envolvendo pessoas carentes e necessitadas de serviços públicos. Pois bem, com a resignação típica de um atrasopolense, aguardou pacientemente até chegar a sua vez. Quando se aproximou do guichê de atendimento sentiu-se aliviado por estar tão próximo de ser atendido. Só que após 4 horas de fila e ao identificar o seu problema – sofria de insuficiência cardíaca e era asmático – recebeu apenas uma senha que lhe dava o direito de ser atendido quando chegasse a sua vez.

    Paciente por natureza, esperou por mais 4 horas. Mas nem tudo é tristeza, pois o seu número foi anunciado em um lindo painel eletrônico e abra-se aqui um parêntese: neste país poderia não haver atendimento eficaz, mas as placas indicativas eram de primeiro mundo.

    Até que enfim lá estava o nosso herói frente a uma gentil senhora que o atendeu com um sorriso nos lábios. Aquilo fez amenizar um pouco a sua angústia e pensou: agora vou ser atendido por um médico que possa ajudar acabar com o meu sofrimento.

    Ledo engano. Após uma detalhada explicação da senhora atendente, esta informou que estava marcando uma consulta com um médico especialista. Como era de emergência, a consulta foi marcada para daí a 60 dias.

    O coitado do nosso simpático velhinho ficou sem saber sequer argumentar. Como pode esperar 60 dias para uma consulta de emergência? Com a postura calma, a senhora explicou que os funcionários e médicos acabavam de voltar de uma longa greve por melhores salários e condições de trabalho, e por isso todas as consultas estavam atrasadas. Deu a ele uma nova senha cujo número seria chamado no dia da consulta que tinha até hora marcada

    Não restou ao bom velhinho retornar a sua casa depois de quase 10 horas ausente e resignar-se pelo “atendimento” recebido. Tão logo retornou, a primeira providência foi anotar no calendário a data da sua consulta. Sabia das dificuldades em conseguir marcá-la e não poderia esquecê-la.

    Enquanto aguardava ansiosamente o retorno, mantinha-se ocupado brincando com o neto que havia lhe emprestado a lancheira. Os males que o acometiam iam se agravando. Sabia que não podia voltar ao Instituto antes da data marcada. Como paliativo, apegava-se ao amigo farmacêutico tomando algum medicamento para amenizar seu sofrimento.

    Chegou um momento que os paliativos não mais surtiam efeito, e pouco a pouco o querido vovô foi definhando até não mais resistir. O desenlace aconteceu na véspera da consulta marcada no Instituto.

    No dia seguinte, exatamente na hora da consulta médica, aquela mesma gentil senhora chamou pelo número da senha dele. Como ninguém respondeu, chamou novamente. Novo silêncio. Última chamada e nada, até que a atendente desabafou em tom enfadonho:

    - A gente faz um esforço para atender todo mundo e esse pessoal esquece de comparecer no dia marcado.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 20:48

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