alvaro em 13/08/11

Muitas histórias começam com o seguinte intróito: “Aconteceu com um amigo meu…” e esta passagem não é diferente.

Tenho um amigo que mora em uma chácara cercada por terreno pantanoso. Diziam os vizinhos que nas redondezas habitava uma peçonhenta serpente jararaca capaz de amedrontar os mais incautos. Contavam histórias a respeito deste terrível ofídio que era capaz de trazer pânico ao local. Destruía tudo o que estava ao seu redor, não se importando com inocentes criaturas que nada tinham a ver com o seu habitat. Na surdina da noite com o seu olhar penetrante e traiçoeiro, avançava sobre a criação do meu amigo e destruía tudo o que encontrava pela frente.

Isso aconteceu durante um bom espaço de tempo. Preocupado com as investidas cada vez mais constantes do inimigo, e sentindo-se impotente em dar cabo ao voraz animal, pos em prática uma estratégia para tentar por fim as investidas da jararaca.

Começou estudando os seus hábitos e anotou que é muito perigosa, mas geralmente foge assim que avistada. Possui desenhos que lhe proporcionam uma excelente camuflagem, sendo difícil a visualização do animal, mesmo para olhos experientes.

Aprendeu, também, que a jararaca possui uma substância que auxilia no tratamento da hipertensão. O princípio ativo do captopril foi pesquisado e aplicado no combate a esse mal, rendendo 5 bilhões de dólares à empresa farmacêutica que desenvolveu os estudos. Além do captopril vários outros medicamentos já foram produzidos a partir de toxinas de serpentes.

A partir dos dados catalogados, o meu amigo passou a ter outro sentimento a respeito da temível serpente. Ao invés de continuar com a idéia fixa de exterminá-la, começou a pensar quanto seria útil mantê-la viva para poder usufruir dos seus escassos dotes benéficos. Sabedor que a espécie subia às árvores para apanhar aves, ou para comer os seus ovos, preparou uma engenhosa armadilha para capturá-la. Não demorou muito e lá estava ela presa para a satisfação do meu amigo.

Por ser seguidor e respeitador das leis naturais, não a sacrificou. Pediu auxílio à entidade protetora dos animais para, ao mesmo tempo, protegê-la de inevitável linchamento por parte dos seus vizinhos, e mantê-la viva para que a entidade competente pudesse estudar o seu comportamento e, posteriormente, devolvê-la a um distante terreno pantanoso, onde não mais importunaria os seus vizinhos, permitindo que estes vivessem em paz com muita tranqüilidade.

Portanto, na improvável hipótese de você encontrar uma jararaca em seu caminho, não a extermine. Devolva-a ao seu habitat natural.

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alvaro em 10/08/11

Já era uma espécie de ritual. Minutos antes da hora marcada, lá estava ele a frente do portão aguardando o filho para levá-lo ao compromisso marcado anteriormente. Podia chover ou fazer sol, mas a disciplina com o horário era uma de suas virtudes. Dizia que não gostava fazer ninguém esperar e ressaltava que compromisso assumido era para ser cumprido à risca.

Apesar das limitações naturais da idade, procurava cuidar-se para manter uma vida mais saudável possível. Caminhava e fazia as pequenas compras nos mercados da redondeza. Apreciava pesquisar preços das mercadorias e tinha um pensamento típico das pessoas idosas que não acreditam muito na política e na economia. Era comum dizer: “A poupança não rende mais nada”. As pequenas economias que guardou durante vários anos, e que nos anos de inflação muito alta creditavam a caderneta de poupança com rendimentos também altos, dava-lhe a impressão – obviamente falsa – que naqueles tempos era um bom negócio manter seu dinheirinho aplicado na caderneta, pois os rendimentos, segundo ele, eram muito bons.

Para o filho, que tinha os seus afazeres profissionais, também era motivo de prazer poder atender o seu pai, acompanhando-o onde fosse preciso. Pelas próprias circunstâncias, os “passeios” eram geralmente a médicos e clínicas para realizar exames de saúde. Aliás, cuidar da saúde era uma das suas principais prioridades. Jamais deixava de tomar seus remédios rigorosamente nos horários prescritos.

Esta passagem nos leva a refletir sobre a necessidade que os mais idosos têm em receber, não apenas auxílio, mas também carinho e dedicação dos mais novos e da própria família. Acredito que só podemos avaliar o que essas pessoas sentem, quando chegarmos a esse mesmo estágio. A carência de atenção para os mais idosos é para eles mais que uma doença. É uma enfermidade incurável.

Portanto, não precisamos esperar pelas festas natalinas, onde o Criador é lembrado pelo seu sofrimento em prol dos semelhantes, para reverenciarmos os nossos velhos, os nossos antepassados, os nossos semelhantes. Vamos praticar o amor, a paz e a harmonia em todos os momentos e tornar a fazer sorrir um idoso que só pede um pouco de carinho.

Quanto ao velho do portão, ele não está mais entre nós. Foi para um plano superior, mas certamente estará se lembrando do apoio que recebeu do filho e de todos que o cercavam. Que a alegria que ele desfrutou em vida, torne-se um símbolo de paz e prosperidade para os que por aqui continuam. O velho em questão pode ser o pai de cada um de nós.

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alvaro em 06/08/11
Portão Verde

Portão Verde

A foto é antiga, mas permanece preservada. Retrata um jovem casal no início dos anos 60 defronte a um portão verde. Ele exibindo penteado com brilhantina à Elvis Presley. Ela elegantemente vestida com detalhes em renda e os cabelos delicadamente moldados com laquê. O momento retrata uma época que deixa saudades.

O jovem casal como tantos outros, almejava dias melhores, estudava, seguia as normas de educação próprias para a época, onde os pais faziam prevalecer suas vontades perante os filhos. Nem por isso deixavam de aproveitar os momentos de lazer para iniciar os namoricos próprios da adolescência.

Os costumes eram outros e a obediência aos pais era o que mais importava.  Durante quase toda a década de 60, o jovem casal do portão verde desenvolveu e fortaleceu um forte relacionamento. A afinidade entre ambos se fazia presente. Claro que discutiam, mas o faziam com o propósito de encontrar soluções para os seus problemas. Jamais descuidaram de acompanhar os estudos e ano após ano galgaram os degraus do ensino sem sobressaltos, passando com folga os anos letivos culminando com as suas formaturas.
Embora jovens já pensavam seriamente em consolidar aquele relacionamento puro e honesto. Faziam planos e como ambos trabalhavam, sentiam-se em condições de constituir família. E assim o fizeram, contraindo matrimônio no final dos anos 60. Suas famílias estavam felizes, pois havia grande entrosamento entre todos.

Esta história pode parecer comum e igual a muitas outras. E realmente é, a não ser por um pequeno detalhe. No decorrer da vida do casal, hoje chegando aos sessenta, muitos altos e baixos ocorreram. Em contrapartida à felicidade pelo nascimento dos filhos, algumas momentâneas dificuldades se manifestaram. E o detalhe é o referido portão verde. Toda vez que um fato negativo acontecia nas suas vidas, recorriam àquela foto, que como um amuleto os faziam recordar o passado e trazer dessas lembranças positivas e felizes, forças capazes de encontrar soluções para os aparentes problemas insolúveis. A foto exercia o fantástico poder de cura dos males da consciência  e dos momentos difíceis. Era um remédio que sempre estava disponível.

Recorrer a fatos do passado ou lembranças de passagens que outrora trouxeram felicidade e realização é ferramenta em desuso atualmente, mas se utilizada na dose certa, propiciará àqueles que se encontram em apuros, um lenitivo para o seu sofrimento.

A foto do jovem casal defronte ao portão verde permanece sobre a estante, irradiando esperança, segurança e bem estar, e junto com a proteção divina contribuirá para a continuidade de uma vida conjugal e familiar mais sólida, exemplar e acima de tudo, feliz.

Preserve as suas recordações.

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alvaro em 23/07/11

Constantemente nos deparamos com situações inusitadas relativas aos nomes de batismo. Cada indivíduo recebe ao nascer um nome que por razões óbvias não ajudou a escolher. Esta é uma tarefa que cabe aos pais, ou, às vezes, aos palpiteiros da família.

Foi o tempo que a maioria das mulheres ao nascer era registrada com o nome Aparecida, em homenagem a nossa santa padroeira. Hoje são conhecidas por Cida ou Cidinha, deixando de lado o prenome. Há um caso em família de uma prima que foi registrada com o nome de Lourdes Aparecida, provocando o desconfortável cacófato “desaparecida”.

Não menos curioso são os nomes dados aos filhos para homenagear personalidades importantes. Maicon transformou-se em homenagem a Michael Jackson, sem contar o jogador de futebol Odivan, que recebeu o nome em homenagem à música do cantor Roberto Carlos, O Divã. Seria lindo se não fosse trágico.

Nomes bonitos como Eduardo e Carlos Alberto, por exemplo, transformam-se em Dudu e Cacá, respectivamente. Os Júniors e os Netos são assim chamados omitindo-se o verdadeiro nome recebido na pia batismal. Cito-me como exemplo: por tradição familiar nas plagas lusitanas, era praxe dar-se ao recém nascido um nome que homenageasse o padrinho e o avô, sem deixar de registrar os sobrenomes dos pais. Como resultante dessa equação fui batizado com um longo nome, mas que fez a felicidade das famílias Conceição e Ferreira. O Álvaro e o Juvenal são heranças do meu avô e do meu padrinho, portanto a mim só pertence a junção dos quatro nomes.

Outra curiosidade que presenciei na empresa em quem trabalhava. Havia dois gerentes, com os nomes de Cajado e Laranjeira. Num determinado dia a secretária do Cajado telefonou para o Laranjeira, perguntando se o seu nome era escrito com “j” ou com “g”. Este informou prontamente que a grafia correta era com “j”, ao que a secretária num tom de brincadeira disse que não fazia diferença essa ou aquela letra, pois a pronúncia seria a mesma. Imediatamente o Laranjeira advertiu a secretária dizendo que, se fosse assim ela iria cometer um grave deslize se trocasse o “j” do seu chefe Cajado pela letra “g”.

Como percebemos, não é só o nome que é importante no tratamento pessoal. Uma pequena troca de letra pode causar grande confusão.

Saudações.

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