• 13fev

    O humilde casal era migrante e morava na cidade grande. Desde criança nutriam admiração um pelo outro e devido às dificuldades e limitações em conseguir um padrão de vida melhor onde nasceram, mudaram-se para a grande metrópole, indo ambos trabalhar em serviços braçais.

    Ele é um daqueles que contribuem para o crescimento vertical da nossa cidade, recebendo o seu sustento através do serviço prestado no ramo de construção civil. Entenda-se como construção civil, aquele que pega firme na preparação da massa e assentamento de tijolos, o popularmente chamado servente de pedreiro.

    Ela ajuda no sustento do lar com renda extra recebida como secretária do lar, nome chique para identificar as empregadas domésticas.

    Como a maioria dos casais que chegam na grande cidade a procura de oportunidades de trabalho, Severino e Lucineide trouxeram a tiracolo uma filhinha de dois anos de idade. Não eram casados de papel passado, mas viviam em harmonia e davam duro para manter a família em condições mínimas de sobrevivência.

    Com o passar do tempo resolveram oficializar a união através de matrimônio. Um desejo antigo e que certamente iria torná-los mais felizes.

    Como não tinham recursos procuraram uma maneira criativa para gastar o menos possível com a celebração e comemoração do casamento. Primeiro convidaram o padre de uma paróquia da periferia sempre envolvido e comprometido com as pessoas carentes, para celebrar o casamento. Aceitou prontamente realizar a cerimônia sem ônus para o casal. Havia, também, no bairro onde moravam, a mercearia do seu Raimundo, conterrâneo e amigo, que ao saber da intenção deles, ofereceu duas caixas de carne de sol, uma caixa de macaxeira, duas garrafas de catuaba e se ofereceu para preparar caldo de mocotó e sarapatel.

    Estava quase preparada a festa. Faltava bebida para refrescar os convidados.   Mas isso não era problema, pois quando ficou sabendo, o seu Nonato da vendinha comprometeu-se a doar duas caixas de tubaina e um caixinha de pacotes de Quisuco.

    Mas onde realizar a festa? Faltava resolver esta pendência. Faltava! Como em todo bairro há sempre um ponto de atração, no deles também havia. Freqüentavam de vez em quando, pois não podiam esbanjar dinheiro à toa, o Bingo Estrela do Norte. Pela amizade conquistada dos donos do bingo, estes ofereceram o espaço para a festa além de realizarem uma rodada de bingo com renda em favor do casal. Apesar do espaço não ser muito grande, tiveram a idéia de fazer um “puxadinho” com aquela lona preta usualmente utilizada para isolar ambientes e manter privacidade.

    Estava montado o esquema. Só faltava emitir os convites, mas teria um custo.    Não foi preciso, pois como eram muito conhecidos no bairro, se encarregaram de fazer o convite verbalmente. Ah! E a roupa? O responsável pela construção onde Severino trabalhava e a patroa da Lucineide, espontaneamente separaram aquelas roupas pouco usadas e ofereceram a eles para serem vestidas para a cerimônia.

    Chegou o dia do casamento. Ao contrário das badaladas cerimônias das celebridades, a festa de casamento de Severino e Lucineide transcorreu de maneira alegre e descontraída, não havendo problemas em controlar a presença de convidados e tampouco, pedindo a algum presente mais inconveniente a sair do recinto. E o ponto alto da cerimônia foi a presença da filhinha Mariana como daminha de honra. Com muita alegria ela levou as alianças até o altar para o padre abençoar aquela união tão esperada.

    Para encerrar com chave de ouro e para a surpresa do casal recém casado, os amigos de Severino que trabalhavam com ele na construção possuíam comprovados dotes artísticos, e improvisaram um conjunto musical. E ao som da sanfona, zabumba, pandeiro e triângulo, animaram a festa até as tantas da madrugada.

    Guardadas as devidas proporções, não há limite para se alcançar a felicidade.   Ricos e pobres podem usufruir bons momentos, mas uma certeza fica no ar: quando a felicidade vem ao encontro de pessoas sofridas, amarguradas pelas vicissitudes e pegas pelas armadilhas da vida, tem muito mais valor e aumenta a grandeza do coração dessas pessoas, transbordando alegria para aqueles com elas convivem.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 16:29

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  • 11fev

    Pode-se afirmar que o olfato é um sentido que proporciona regressão no tempo fazendo nos lembrar de cenas e momentos inesquecíveis. Por mais longo o período que se passou determinado acontecimento, é imediata a sua lembrança se associarmos o aroma que predominava naquele instante. O perfume tem essa propriedade.

    Eduardo é um eterno apaixonado. Desde a adolescência revelava inocência e pureza no trato com as pessoas, principalmente com as do sexo oposto. Não era namorador, mas apaixonava-se facilmente. Podia-se dizer que era o genro que muitas sogras gostariam de ter. Estudioso, de boa família e educado era o menino modelo entre os garotos de sua geração.

    Talvez por ser tão correto, não conseguia relacionar-se por muito tempo com as namoradas, até que encontrou a sua alma gêmea. Raquel era uma jovem no início da adolescência, com muita alegria de viver, descontraída e de boa família, como Eduardo. Tinha uma peculiaridade que atraía Eduardo. Adorava perfumar-se. Nunca saia de casa sem antes passar uma colônia cuidadosamente escolhida para o ambiente que iria freqüentar. Sabia cativar as pessoas pela sua própria desinibição e tinha consciência que o que mais agradava Eduardo era o seu aroma de rosas, como ele costumava dizer.

    Ela era tão charmosa e chamava tanto a atenção que começou a preocupar Eduardo. Nas festas que freqüentavam, naturalmente era a jovem mais apontada por todos os presentes. Isso deixava Eduardo enciumado, mas sua paixão por ela era tamanha que preferia enfrentar o dissabor de ser ignorado por seus colegas do que perder a sua grande paixão.

    Para tudo há um limite. Com o passar do tempo a situação começou a ficar insustentável. As atenções dela não estavam apenas se dirigindo ao namorado. Os seus olhares começaram a mirar outros alvos e aos poucos a paixão pelo namorado também começou a esfriar. O mesmo não ocorria com Eduardo, que mesmo sabendo do comportamento da amada, não admitia perdê-la para outro pretendente. Não conseguia imaginar ficar longe do aroma de rosas que inebriava aquela união.

    Infelizmente, após dois anos de romance aquele relacionamento teve fim.  Ambos seguiram seus destinos, pois eram jovens e novas oportunidades de relacionamento certamente apareceriam.

    Não se sabe o que aconteceu com Raquel, embora se possa imaginar que continuou cativando os seus amores com o inefável aroma das rosas.

    E quanto ao nosso amigo Eduardo, qual seria o seu destino? Já se passaram dez anos daquela paixão tórrida e ele jamais conseguiu encontrar-se com alguém para dividir o seu coração. Toda vez que tentava, vinha à sua mente aquele aroma inconfundível e ele lamentava não o sentir mais com as poucas namoradas que estiveram em seus braços. Hoje vive feliz à sua maneira. É proprietário de uma grande rede de cosméticos e perfumarias e a sua especialidade é orientar seus clientes quanto aos melhores aromas e essências disponíveis no mercado, e realiza-se quando convence alguém que o perfume com aroma de rosas é o que mais representa o amor, a paixão e os felizes momentos do passado.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 17:46

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  • 08fev

    Não sei de quem é este pensamento, mas ele reflete uma verdade inconteste. Todos nós durante a juventude, tivemos idéias e atitudes que julgávamos as mais corretas. Pensávamos que poderíamos consertar o mundo, que todos estavam errados e nós éramos os únicos certos. De alguma forma, este poder de contestação auxiliou a maioria dos jovens a formar o seu caráter e personalidade.

    Os anos passam e a visão destes jovens – já não mais tão jovens assim – começam a se direcionar para outros fatores e outra realidade, fazendo com que as suas atitudes se tornem menos contestadoras e mais realistas.

    De pouco adianta “dar murro em ponta de faca” quando é sabido que sozinho nada se pode fazer.

    O poder da força nem sempre é a melhor solução para resolver determinado problema ou situação. Ainda acredito no poder do exemplo e da atitude sensata para sanar alguma injustiça ou situação indesejada.

    Entretanto, não devemos cercear a ímpeto de mudanças que os nossos jovens têm dentro de si. Como adultos e responsáveis que somos, devemos sim orienta-los e procurar encaminhá-los para a direção mais certa. Jamais censura-los, pois a história demonstra que certas mudanças só foram conseguidas através de contestação e rebeldia, no bom sentido das palavras.

    Portanto, como já passei dos quarenta e não pretendo ficar sem cabeça, continuarei a minha revolução, porém desarmado, procurando transmitir um pouco de calma e tranqüilidade àqueles com quem convivo.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 12:52

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