alvaro em 11/07/11

Uma das suas especialidades é preparar uma deliciosa sopa de grão de bico. Nesta arte acredito que ninguém a supera. Com esmero e principalmente com muito amor, é capaz de saciar o apetite de uma numerosa família. Nem tanto pelo apetite, mas, principalmente, pelo fato de conseguir reunir a família em torno de uma mesa e ansiosos esperarem pela tão desejada iguaria.

Não é apenas esse predicado que a qualifica como uma pessoa especial. A sua atitude em servir os seus entes queridos também é outro aspecto notável. Sabe o gosto e a preferência de todos. Por isso gosta de preparar os pratos individualmente com a quantidade exata, contendo os ingredientes que cada um mais aprecia. Com requintado bom gosto compõe a mesa com pratos de porcelana cuidadosamente guardados para estas ocasiões especiais. Faz questão que seus convidados sintam-se bem, oferecendo-lhe carinhosamente o melhor que possui. Parece que o seu coração está ali em cada prato servido.

Como todo imigrante, passou dificuldades no passado. Com muito sacrifício reiniciou a vida junto com o marido neste país acolhedor há mais de cinco décadas. Com seu trabalho e tenacidade deu ao filho muito amor e afeto. Pode-se dizer que tirava da sua boca para dar a ele aquilo que gostava.

Todos os anos, principalmente no seu aniversário, tem a família no seu entorno. Ao ouvir o “Parabéns a Você” cita sempre a mesma frase: “Será que vou estar aqui no ano que vem?” Diga-se que a família ouve isso há muitos anos e espera continuar ouvindo por muitos outros.
Voltando a sopa de grão de bico quero dizer que ainda sinto o seu sabor misturado com o sabor de mãe prestativa, pois acabo de participar daquela reunião familiar para ajudar a consumir o prato tão desejado. E ouvi novamente a mesma frase. Para uma mulher que completou 91 anos e tem uma família maravilhosa, deve ser gratificante ter ao seu redor muito carinho e atenção.

E que Deus permita que possamos por muitos anos ouvi-la dizer: “Será que vou estar aqui no ano que vem?”.

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alvaro em 03/07/11

Era um jardim onde o verde prevalecia. Árvores frondosas generosamente ofereciam sombra reconfortante. Flores em abundância da primavera que aos poucos se transformavam em lenitivo para o verão que acabava de chegar. Não faltava um lago sereno com águas límpidas que refletiam o azul celeste tornando-o inspirador a confiar-lhe os mais ardentes desejos.

Poderia ser o cenário mais adequado para a realização de um filme de amor, ou de uma história de preservação da natureza. Poderia ser também, o cenário ideal para testemunhar os ideais e sentimentos de casais apaixonados. Sentar-se nos bancos do imenso jardim, trocar confidências, planejar o futuro e, principalmente, ratificar o sentimento de respeito existente entre o casal.

A vida atribulada que vivemos impede de nos inserir em ambientes como este. A selva de pedra do nosso dia a dia nos remete a viver exclusivamente entre quatro paredes. O romantismo de andar de mãos dadas com o seu par e passear pelos jardins está se acabando aos poucos. Admirar a natureza despreocupadamente sem olhar para o relógio torna-se um hábito cada vez menos frequente.

Como seria confortante voltarmos a cultivar tais hábitos, explorar a simplicidade, relembrar os momentos felizes e voltar a passear pelos bosques e jardins.

Como seria maravilhoso simbolizarmos uma renovação do casamento voltando àquele cenário emoldurado de verde tendo as árvores como testemunhas.

Não importa a idade nem há quanto tempo o casamento perdura. O mais importante é que esta renovação fortalecerá a união conjugal e servirá de exemplo para futuras gerações.

Vamos ao jardim, pois!

No Jardim

União

No Jardim

No Jardim

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alvaro em 27/06/11

O menino tinha 12 anos, aquela idade entre o faz de conta e o início da adolescência. Não decepcionava os pais na vida escolar. Sem ser um ferrenho devorador de livros ou de passar horas dedicando-se ao estudo das matérias, era um aluno acima da média.

Percebia-se nas suas atitudes uma curiosidade latente para o novo, para o desconhecido. Gostava de compartilhar de conversas com pessoas adultas ou trocar idéias com jovens mais velhos que ele. Estava sempre ligado, e já nessa fase, começo dos anos 90, revelava destacado interesse pelos mistérios da informática.

O destino quis que o seu pai fosse designado pela empresa onde trabalhava, para uma missão profissional em uma subsidiária no exterior. Estava ali uma rara oportunidade para o desenvolvimento profissional e, principalmente, oferecer à família a grande chance de conhecer outra cultura e aprender outros idiomas.

Ao dar a notícia em casa todos se exultaram. Para o menino era o que mais ansiava. Com tão pouco idade percebia-se que aquele sonho chegou para ele bem antes do que imaginava. O país era a Alemanha, e depois de passar um período administrando a documentação para a família, chegou a hora do embarque.

Poupando detalhes sobre a alegria de estar viajando num jato de última geração e a surpresa em encontrar um país tão diferente do nosso, o menino encarava a nova experiência com galhardia e determinação. Não se acanhou, tampouco se amedrontou, nos primeiros dias de aula na Escola Internacional Americana, opção do pai para facilitar e conciliar a sua vida escolar no regresso as nossas origens.

Nos primeiros três meses, a dificuldade natural em acompanhar as aulas em inglês e também fazer as tarefas de casa. Nesse período o pai auxiliava como podia, mas foi percebendo que cada dia que passava a sua ajuda era menos requisitada.

Certo dia ao regressar do trabalho, presenciou o menino ao telefone conversando com um colega de escola. O pai não acreditava no que via, ou ouvia. Num desembaraço de impressionar, ambos conversavam na língua que acabaram de assimilar como se fossem nativos americanos.

O progresso na escola era sentido à olhos vistos. Vivia intensamente as atividades escolares, completamente integrado ao novo meio. Respeitava e era respeitado pelos professores, que o chamavam toda vez que havia um problema com os computadores da escola. A sua habilidade com o assunto já se manifestava com tão pouca idade. Não eram raras as menções honrosas pelo seu desempenho e aproveitamento.

O tempo que lá morou, dois anos e meio, deu a ele uma formação de caráter muito forte, uma personalidade marcante e a certeza que o tempo lá passado, iria ajudá-lo na sua formação pessoal e profissional.

No regresso ao Brasil, sentiu novamente dificuldades na escola, agora no sentido inverso. Por ter passado o início da adolescência convivendo com jovens das mais longínquas partes do universo, precisou de um tempo para adaptar-se a nova realidade. Mas o jovem possui um senso de adaptação muito aguçado e rapidamente sentia-se em casa novamente.

Hoje o menino, ou melhor, o jovem está concluindo o nível universitário, graduando-se naquilo que domina e sabe fazer bem: Ciências da Computação. Antes mesmo de graduar-se já contribui com a própria faculdade, ministrando treinamento para os alunos e instituições ligadas ao ramo de informática. Paralelamente, criou uma pequena empresa para prestar serviços de desenvolvimento de programas, e pelo conhecimento adquirido e o respeito reconhecido daqueles que estão à sua volta, tem conseguido desenvolver trabalhos que o qualificam como um bom profissional.

Este conto é um bom exemplo para nós pais. Quem de nós não almeja um futuro sólido e tranqüilo para os nossos filhos? Nem todos têm a mesma oportunidade do pai do menino. Nem todos têm o menino com a mesma ambição e determinação. Mas todos têm, com certeza, o mesmo amor e carinho pelos seus filhos. Havendo isso, não importa o que venha acontecer. Com amor e carinho, raramente haverá desvio na conduta dos nossos herdeiros. A educação através de exemplos é a melhor ferramenta que um pai pode deixar como herança aos seus filhos.

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alvaro em 14/06/11

Passamos a vida ouvindo histórias. Dependendo do momento ou da fase da vida que atravessamos, as histórias que nos contam têm significados diferentes.

Quando crianças éramos acalentados com histórias magníficas que nos levavam a um mundo imaginário repleto de luzes brilhantes e de horizontes infindáveis. O melhor de tudo era exatamente não ouvirmos o final de história, pois a atenção era tamanha que rapidamente nos transportávamos para aquele mundo do faz de conta e não raramente continuávamos a história por intermédio dos sonhos intermináveis de uma noite de um sono sereno.

Há aquelas histórias convenientes. Mesmo não considerando a sua veracidade, são aceitas como consolo e esperança. Quando temos um amigo ou um ente querido acometido de algum mal, nos tranqüilizamos em ouvir o relato de que aquele mal é passível de cura, a despeito de termos consciência do que ouvimos não ser fiel aos fatos. É a chamada mentira confortante.

Há a história da menina que ouvia sua mãe falar sobre seu pai – avô da menina – quando este ia à procura de lenha para alimentar o fogão da casa no preparo da alimentação diária, além de manter o ambiente quente e aconchegante. Dizia ele que andava horas e horas a procura de bons pedaços de árvores. Levava consigo um machado afiado e fazia daquele exercício diário um hábito salutar.

O que mais impressionava a menina era o relato de sua mãe ressaltando um fato que ficou gravado em sua mente por muitos anos. Moravam em um lugarejo no norte da Itália ao pé da montanha, chamado Monte Grappa, e sua mãe contava que seu avô saia de casa muito cedo. Depois de caminhar por mais de duas horas sempre subindo o monte, começava a notar a distância que se encontrava, não mais observando o ponto de partida. Pouco a pouco, ia se envolvendo pelas nuvens próprias de regiões montanhosas e só conseguia olhar poucos metros à frente. Como já conhecia e dominava a sua tarefa, não tinha dificuldade em trazer de volta uma quantidade de lenha compatível com a sua resistência física.

A menina não estava lá, mas a descrição da cena ficou marcada em seu subconsciente. Já adulta e junto com sua mãe, sentia prazer e satisfação em contar essa passagem aos seus amigos. O que mais a impressionava e aguçava a curiosidade era saber o que significava subir até ficar acima das nuvens. A não ser por intermédio de avião, a cena parecia improvável.

Parecia… Apareceu a oportunidade de viajar a Europa. Ela com o marido e um casal amigo organizaram um passeio e dentre os objetivos traçados, um era exatamente visitar a origem de seus antepassados.

Quem tem boca vai a Roma, diz o ditado. Embora não fosse Roma, o adágio também vale. Apenas com o nome da cidade anotado num pedaço de papel, lá foram os quatro a procura do tal Monte Grappa Pergunta daqui, pergunta dali e eis que os nossos aventureiros encontraram o lugar tão procurado.

Queriam explorar o lugar. Perguntaram pelo sobrenome da família na esperança de encontrar algum parente distante. Nada. Como lá estavam, iniciaram a subida do monte para, pelo menos, apreciar a paisagem. Conduzindo o veículo com cautela pelas sinuosas curvas, deram conta que já estavam a uma altura considerável, não lhes permitindo divisar as casas na base do monte. E eis que de repente, viram-se diante de um tipo de fumaça branca à sua frente. Imaginaram inicialmente tratar-se de alguma fogueira ou resultado de queimadas. E aí veio imediatamente à sua mente aquela história da mãe sobre seu avô. O que parecia um conto de fadas era agora uma realidade. Estava penetrando nas nuvens exatamente como seu avô contava à sua mãe. Mais alguns metros de subida e nada mais se avistava ao redor.

Depois de um rápido momento de observação e reflexão, quebra-se o silêncio e ouvem-se soluços de emoção. O êxtase em observar tão marcante paisagem trouxe aos quatro amigos a certeza da existência de algo superior que nos guia e protege. Num passado distante o avô daquela que já foi criança, fazia o cansativo percurso a procura de subsistência, e naquele momento, sentindo sua presença, sua neta e herdeira lá se encontrava para prestar silenciosa e emocionada homenagem.

Histórias
Lembranças
Pensamentos
são histórias. Algumas nos fazem dormir, outras nos confortam e a do Monte Grappa nos faz chorar de emoção e, ao mesmo tempo, de alegria.

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