• 09abr

    As diferenças lingüísticas regionais obrigam-me a dizer que temos algumas denominações para o estilingue.  Pode ser, também, chamado de funda, atiradeira, bodoque, etc. No meu tempo de moleque era estilingue, mesmo.

    Como qualquer menino que adorava viver na rua, apesar dos protestos da mãe, era daqueles que, inocentemente, gostava de usar o estilingue para realizar algumas traquinices próprias de crianças levadas. Já lá se vão mais de cinqüenta anos. Era o início da iluminação pública e a rua onde morava recebeu este tão esperado benefício. Quanta alegria. Poderíamos passar mais tempo vagando na rua, pois passaria a proporcionar maiores oportunidades de lá permanecermos até durante a noite. Convém lembrar que naquela época ainda não havia o perigo comum de hoje em perambular pelas ruas, alamedas e vielas da vila.

    Como toda a novidade, aguçava a curiosidade daqueles, que como eu, buscava novas emoções em tudo que surgia de novo. As lâmpadas eram emolduradas por um tipo de prato superior que auxiliava no reflexo da luz.   Era algo moderno para a época, mas despertava certa curiosidade para a molecada. Pouco a pouco, percebemos que aquele avanço da modernidade em oferecer aos munícipes um pouco mais de conforto, passou a ser um alvo desejado para os nossos estilingues.

    Uma semana após terem sido instaladas as luminárias, pelo menos metade delas já se apresentavam sem as devidas lâmpadas, mesclando a rua com pontos escuros com a  falta de iluminação em determinados pontos. Como ocorreu isto? Ora, pela mira precisa de alguns companheiros que utilizando pedras ou frutos de mamona com um estilingue feito à mão (quem não se lembra?) destruíram aquilo que devia ser preservado. Mas convenhamos, como era gostoso…

    Como sempre acontece quando uma má ação é realizada, fomos descobertos. Foi o pai de um dos meninos da turma. Após uma descompostura, aliás, merecida, fomos obrigados a entregar-lhe todas as nossas perigosas armas. Além disso, fomos obrigados a realizar boas ações para compensar tais atos de vandalismo.

    Firmamos o compromisso de não mais agirmos daquela maneira, quebrando lâmpadas causando o desconforto para os moradores da rua. Em contrapartida, o tal pai do nosso coleguinha comprometeu-se a nos restituir os tão queridos estilingues após cumprirmos a promessa. O castigo durou uma semana, período em que parecíamos querubins acompanhando a mais religiosa das procissões.

    Passado o período de castigo, tivemos de volta as nossas “perigosas” armas.  Contentamos respeitosamente o pai até então enfurecido, prometendo-lhe jamais atentar contra o patrimônio que tanto nos beneficiava.

    De posse dos estilingues, nos reunimos (sim, já tínhamos poder organizado), e decidimos nunca mais quebrar aquelas lâmpadas que permaneciam ao nosso alcance. Entretanto, notamos que, cada vez com maior freqüência, os passarinhos se acomodavam nos fios que transmitiam energia para manter as lâmpadas em funcionamento. Como todos nós nos gabávamos por termos boa pontaria, por que não derivar as nossas habilidades para combater o excesso de excrementos que os pássaros poderiam causar na via pública.

    E assim fizemos… os estilingues funcionando a todo vapor, os pássaros sumiram como num passe de mágica, a rua permaneceu limpa, as lâmpadas intactas, e o pai do nosso amigo feliz para sempre.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 12:11

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  • 15set

    Era o ano de 1960 e estava no começo da minha adolescência. Estudava em colégio pago, como se dizia na época, pois naquele tempo era muito difícil cursar o ginásio do Estado. Por isso guardo boas lembranças do Ginásio Santo André do Professor Lazzarini.

    Como tinha que ajudar meus pais a pagar o estudo, fui à procura de emprego. Mas o que um pirralho de treze anos poderia fazer? Experiência: nenhuma. Vontade: muita. Fui à luta e com a ajuda de um amigo consegui um emprego como atendente/recepcionista num escritório de advocacia.

    Gostaria de destacar quão importante foi este meu primeiro emprego. Também gostaria de registrar o respeito que tive e ainda tenho, apesar de não mais ter contato com esse advogado e meu primeiro chefe, Dr. Luiz Fernando Granzieira da Silva, que ainda milita nos meios jurídicos.

    Foi uma fase de despertar para um mundo diferente, onde a criança passa a deixar os seus brinquedos e começa a sonhar com um futuro cheio de realizações.

    Lembro-me bem. Ia para o trabalho de ônibus que passava pela Oliveira Lima e parava no Largo da Estátua.

    Os tempos eram outros e as atitudes, também. O primeiro salário que recebi, entreguei-o à minha mãe dentro de um envelope que eu mesmo preparei. Era uma satisfação indescritível poder contribuir com os gastos de casa. Em retribuição pelo meu esforço, a minha mãe fez questão de me comprar um par de abotoaduras, que ainda guardo, não só como lembrança, mas principalmente por ter marcado um dos momentos mais sublimes da minha vida.

    Quando completei quatorze anos, deixei esse emprego, e segui outros caminhos sempre com o firme propósito de alcançar um futuro melhor, porém sem nunca esquecer o início de tudo que foi a chance que o Dr. Luiz Fernando me ofereceu, para quem rendo a minha homenagem e o mais profundo agradecimento.

    Escrito por Álvaro Ferreira @ 21:24

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