alvaro em 08/06/11

Invariavelmente, todos os dias por volta das 7 horas da manhã um “bando” de maritacas se aproxima da janela do meu quarto e sem a menor cerimônia, inicia uma melodiosa serenata. Se ainda não estou acordado, é a senha infalível para que me levante e comece mais um dia.

Talvez um ornitólogo possa dar as explicações do comportamento das maritacas, ou dos grandes periquitos, como são conhecidos em outras regiões do Brasil. Por um período de aproximadamente quinze minutos ouço a estridente melodia dos pássaros. Tento prestar atenção e entender o que estão tentando transmitir. Impossível. Percebo apenas que todo o bando está alegre, tentando comunicar-se entre si através de sua linguagem própria.

Isto me trás ao ambiente do nosso cotidiano. Primeiro pela lição de pontualidade. Como elas, precisamos manter o hábito de encarar os nossos compromissos com pontualidade, evitando atrasos em nossos encontros ou reuniões. Imaginem algum de nós empresários marcar reunião com o cliente mais importante e chegar atrasado na hora do encontro. Além do sorriso amarelo ao chegar, haverá uma grande chance de não realizar negócios.

Outro ensinamento que as maritacas nos oferecem. A alegria contagiante em seu encontro matinal deve ser olhada como exemplo para as nossas atividades. Na mesma linha do dia a dia profissional, imagine receber ou ser recebido por alguém com o semblante amarrado, como algum fanático torcedor que viu seu time perder o campeonato aos 45 minutos do segundo tempo.

Um sorriso nos lábios é o melhor cartão de visitas. Abrem-se portas para um bom relacionamento. Manifestar alegria por aquele encontro com um riso espontâneo é sinal de regozijo para o interlocutor.

Vamos praticar com mais freqüência as lições das maritacas e tornar mais prazerosa a nossa vida. Mas cuidado: não vamos exagerar, porque, às vezes, o alarido das maritacas é tão grande que tenho vontade de pegar o meu estilingue.

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alvaro em 03/06/11

Quem ainda não se defrontou com a tarefa de assistir a uma festa de criança? Refiro-me àquela festa de final de ano da escolinha dos filhos ou dos netos. Duvido que alguém não tenha passado por isso.

Imaginem um sábado ou domingo pela manhã, quando o melhor programa é ficar em casa, lendo o jornal, acompanhando um evento esportivo pela TV, ou ainda, praticar uma saudável caminhada pelos parques da cidade. Tudo isso pode ir por água a baixo quando nos vemos compromissados a comparecer a uma apresentação de dança das nossas crianças, não importando se são filhos ou netos.

A primeira impressão que nos vem à mente é aquela aparente chatice de perder o nosso precioso tempo para cumprir tão inócuo compromisso.

Porém é apenas aparência. Da mesma forma que duvido que alguém já não tenha passado por esta experiência, também afirmo que, quem já passou por isso, não tenha saído do evento com outra opinião a respeito.

Será que a aparente insensibilidade de um pai ou de um avô, não se transforma em deleite ao ver uma criança de apenas três anos de idade, cantar o hino nacional? Será que a sisudez de um adulto não permite esboçar um sorriso ao ver a mesma criança cantar uma terna cantiga ou fazer uma oração de agradecimento por apenas permanecermos vivos e com saúde?

É por estas pequenas coisas para um adulto, mas de grande significado quando ditas por uma criança, que devemos refletir sobre as lições que estes pequenos seres nos proporcionam. A ausência de malícia e a pureza de uma criança são fatores em desuso por alguns adultos. Houvesse mais sinceridade, amizade e companheirismo entre os povos, certamente o universo estaria mais unido e as diferenças deixariam de existir.

Portanto, vamos aprender com estas crianças que mesmo não tendo completa noção do bem que estão fazendo a humanidade, precisam ter o apoio daqueles que as cercam, prestigiando sempre as suas atividades, mesmo nos privando de programas dominicais mais interessantes.

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alvaro em 31/05/11

Zelindo hoje está aposentado. Trabalhou mais de trinta anos em uma empresa multinacional. Como qualquer mortal, começou despretensiosamente, aproveitando uma época de vacas gordas, onde o difícil era ficar desempregado. Não tinha formação escolar suficiente para ocupar as chamadas funções de escritório. Demonstrava grande força de vontade e executava sua tarefa de mecânico de manutenção de forma harmoniosa, não decepcionando seus superiores.

Passou por todas as fases econômicas e testemunhou a troca da nossa moeda por diversas vezes. Nunca se esquecerá do dia em que amanheceu com as suas economias depositadas na caderneta de poupança, confiscadas pelo governo. Se era para o bem da nação, até entendeu e como muitos, passou a agir como fiscal do governo no abuso da remarcação de preços. Não tinha um salário extraordinário, mas como a época era de um grande “boom” industrial e a demanda clamava por altos índices de produção, Zelindo engordava o seu orçamento familiar fazendo horas extras o que lhe rendia praticamente outro salário.

Seus filhos cresciam e precisavam de instrução escolar e educação adequadas. Sempre primou por dar a eles o melhor. Preferia deixar de gastar em algo supérfluo que privar seus filhos de escolas de bom nível, o que significa dizer que os mantinha em escolas privadas, onde o ensino era distanciadamente mais aprimorado.

Não esbanjava e com as suas economias comprou outro imóvel. Como já possuía um, tratou de alugá-lo e aplicar o rendimento mensal em um fundo de investimento, prevendo que no futuro precisaria dessas economias para poder sobreviver decentemente.

Os anos passaram. Com muito esforço, conseguiu dar condições aos seus filhos de cursar uma universidade. Hoje ambos estão formados e orgulhosos do pai que com muito sacrifício deu a eles o que mais de precioso há no seio familiar: educação e formação.

Tudo na vida tem começo, meio e fim. No âmbito profissional não é diferente. Era chegado o momento de Zelindo recolher-se, deixando de lado a rotina diária para dedicar-se a tarefas menos cansativas e estressantes.

No início sentiu muito a mudança brusca nas atividades cotidianas. A parte financeira também foi sentida, pois com o salário da aposentadoria mais o pequeno valor recebido  do aluguel da casinha que havia comprado, não podia manter o mesmo padrão de vida que até então vinha usufruindo.

Louve-se a sua determinação em manter-se fiel ao seu emprego por mais de três décadas. O seu desempenho, sem ele saber, havia sido reconhecido pela empresa. Nos últimos dez anos, por deliberação espontânea, a companhia recolheu mensalmente uma quantia para um fundo de previdência privada dentro do programa de responsabilidade social implementado pela empresa.

Felizmente, tem sido essa ajuda que tem mantido o padrão de vida praticamente o mesmo de quando estava na ativa.

Entretanto, o que aconteceu com Zelindo é uma dessas exceções que representam um desprezível percentual na estatística trabalhista. Os seus companheiros de trabalho hoje amargam um padrão de vida aquém das suas necessidades básicas. Também não se empenharam como Zelindo para garantirem um futuro melhor e dependem dos filhos para se manter.

Esta é a dura realidade. Não podemos menosprezar as oportunidades que surgem no nosso caminho. Queiramos ou não, o trabalho honesto, a dedicação aos afazeres, ainda são molas propulsoras para a manutenção do lastro familiar.

Pensem nisso e façam ver aos seus filhos que o sucesso profissional não acontece por acaso. Façam ver a eles, também, que a garantia de um futuro sólido e consistente só depende deles, do seu esforço, do seu sacrifício. O seu exemplo é a mais importante lição que você pode transmitir.

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alvaro em 21/05/11
A Gaita de fole

A Gaita de fole

Assistindo recentemente um programa de televisão onde se divulgava aquele lado de Portugal que poucos conhecem, inspirei-me a escrever algo sobre a terrinha que tanto amamos.

Que sou português, não deve ser novidade para a maioria. Que sou brasileiro por opção, também não. Mas que tenho na memória a cena que os gaiteiros, como mostrado no programa, proporcionaram aos que assistiam, não deve ser fato conhecido.

Lá nasci e enquanto lá morava (até os 6 anos) participava das festas tradicionais daquele pequeno lugarejo. Como toda a cidade, lá também se reverenciava o santo ou santa protetora do lugar para os quais eram dedicados os votos de fé.

Todo mês de julho, mais precisamente no dia 22, comemorava-se a festa de Santa Madalena, a padroeira do Conselho. A presença dos fiéis acompanhando a procissão era o momento da mais fervorosa prova de fé. Não menos importante era a expectativa pela chegada das gaitas-de-fole. Os gaiteiros, como são chamados, chegavam meio de mansinho e podiam ser ouvidos com o som característico e incomparável, com a sinfonia num crescendo uniforme denotando a sua aproximação ao centro da freguesia. Para os meus pais, era o ápice da festa, mas para mim, que nada entendia sobre aquela manifestação, era um momento de apreensão, pelo simples motivo de ter medo daquele bando (no bom sentido) de homens tocando cada vez mais alto aquele estranho instrumento.

Os anos passam, e mais do que uma vez, tive a oportunidade de regressar a terra que me concebeu. Em uma dessas vezes, exatamente no dia da Festa de Santa Madalena, lá estava eu visitando os parentes, e eis que, de repente, ouvi um som distante, porém familiar que o meu subconsciente de imediato identificou. Era o gaiteiro se aproximando, depois de passar por outras casas anunciando o início de mais uma festividade. Entre esses dois acontecimentos passaram-se mais de cinqüenta anos. Porém, aquele medo que sentia na minha infância, repentinamente transformou-se em júbilo, e aquele conhecido arrepio que sentimos em determinados momentos de emoção, tomou conta de mim e, ao invés de sorrir, chorei de felicidade.

Esta pequena passagem serve para afirmar que o verdadeiro Portugal é aquele que guarda as suas origens e preserva as suas tradições. É para conhecer este verdadeiro Portugal que conclamo os patrícios e admiradores da cultura e folclore lusitanos a visitarem aquele país, que de pequeno só tem o território, mas mostra uma grandeza incomensurável. Quem sabe ainda teremos chance de ver os gaiteiros abrilhantando uma das festas regionais. Se não for possível encontrá-los, tenho certeza que encontraremos vinho, bacalhau, muita fartura, e, principalmente, o carinho do povo português, ora pois!

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